Projeto Pontos de Sexualidade
Sobre o projeto
Trata-se de um trabalho que traz uma contribuição importante para a concretização de políticas públicas inclusivas, contribuindo para diminuir o gap de materiais e técnicas educativas para adolescentes e jovens com deficiência visual.
Esse kit educativo (composto do Caderno Sexualidade e Deficiência Visual: uma proposta de educação inclusiva e do CD Namoro (contendo uma audiodramaturgia em 4 episódios) é uma importante ferramenta pedagógica para auxiliar as escolas e espaços não-formais de educação a desenvolverem projetos de educação em sexualidade envolvendo jovens com deficiência visual.
Com esse projeto a ECOS teve um importante aprendizado. Até então, não tínhamos claramente definido uma perspectiva de educação inclusiva em nossos projetos e em nossa atuação. Essa constatação sensibilizou toda a equipe e resultará em maior investimento e aprofundamento deste tema em projetos futuros.
O CD Namoro
Inicialmente o projeto previa a criação de uma série de boletins em Braille. Durante a pesquisa que antecedeu a criação do kit educativo, descobrimos que deficientes visuais, em geral, valorizam formas de expressão baseadas em áudio. Além disso, esse tipo de mídia é barata, fácil de ser copiada, podendo ser disponibilizada em meio eletrônico, veiculada em rádios, atingindo número maior de pessoas. Baseadas nesses elementos, decidimos pela criação de um CD com conteúdo em áudio em vez dos boletins em Braille.
Ainda na fase de pesquisa, mapeamos o campo de atuação e levantou informações para subsidiar a realização do CD. Essa etapa envolveu pesquisa bibliográfica sobre o tema sexualidade e deficiência. Foram contatadas instituições e pessoas envolvidas em atividades com deficientes visuais. Também foram entrevistadas alguns/as deficientes visuais.
Dentre as instituições contatadas se encontram a CEMAC – Centro Municipal de Apoio ao Cego de Rio Claro, cidade do interior do Estado de São Paulo e, em Santos, cidade litorânea do Estado de São Paulo, o Lar das Moças Cegas (www.lardasmocascegas.org.br) e o Instituto Braille de Santos. Em Rio Claro realizamos entrevistas em profundidade com pessoas que frequentam a unidade e em Santos realizamos entrevistas com profissionais e grupo focal com adolescentes e jovens deficientes visuais.
Em um segundo momento, firmamos parceria com duas instituições de referência na cidade de São Paulo: Fundação Dorina Nowill (www.fundacaodorina.org.br) e LARAMARA – Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual (www.laramara.org.br).
A Fundação Dorina Nowill envolveu-se no projeto, participando de suas diferentes etapas e, sobretudo na produção do Caderno, como co-autora.
Valendo-se dos resultados da pesquisa bibliográfica e entrevistas com educadoras/educadores e grupos focais com adolescentes/jovens, definimos os temas de maior interesse e identificamos as maiores lacunas no conhecimento em relação à saúde sexual e reprodutiva e direitos sexuais e reprodutivos. Esses elementos geraram um briefing que subsidiou a elaboração do roteiro do áudio.
Nos 47 minutos de duração do áudio, divididos em 4 episódios, desenvolve-se a história do relacionamento afetivo de uma garota e um garoto, ambos deficientes visuais, que se conhecem pela internet. Os personagens, movidos pelo desejo e pela paixão, típicos de início de namoro, buscam informações sobre sexualidade, o que fazer na primeira transa, como evitar a gravidez, como prevenir as doenças sexualmente transmissíveis e o HIV, etc. Essa audiodramaturgia, intitulada Namoro, foi replicada em CD e encartada no Caderno Sexualidade e Deficiência Visual: uma proposta de educação inclusiva.
O principal desafio a ser vencido com este projeto refere-se à resistência de alguns profissionais e instituições que trabalham com deficientes visuais em abordar as questões de sexualidade e saúde reprodutiva destas pessoas. Há ainda pessoas que não reconhecem os direitos sexuais e os direitos reprodutivos das pessoas com deficiência visual, sobretudo de crianças e adolescentes nesta condição. A parceria estabelecida com a Fundação Dorina Nowill foi estratégica para a superação deste desafio e na divulgação do material produzido.
O Caderno Sexualidade e Deficiência Visual: uma proposta de educação inclusiva
Foram realizadas várias reuniões, para discussão da proposta, definição de estrutura de conteúdo e divisão do trabalho. Desta divisão resultou a parceria da equipe de educadores da Fundação Dorina Nowill (Edson Luiz Defendi, Maria Cristina Godoy Cruz Felippe, Patrícia Miyuki Otani, Rita Helena da Costa Lobo, Tatiana Maria Sanchez) e a equipe ECOS (Maria Helena Franco, Sandra Unbehaum e Vera Simonetti) para a redação do conteúdo. A Fundação LARAMARA responsabilizou-se pela etapa de revisão.
O processo de redação envolveu trabalho individual e coletivo. Neste caso, reuniões para discussão de conteúdo, formato, elaboração das atividades, metodologia de trabalho com jovens etc.
Diretrizes e conceitos – chave do Caderno
A educação inclusiva é a principal diretriz que orienta a concepção do Caderno, tal como definida por Marta Gil (2005, p.12):
“ A Educação Inclusiva é um sistema de educação e ensino em que todos os
Alunos com necessidades educacionais especiais, incluindo os alunos com
deficiência, frequentam as escolas comuns, da rede pública ou privada,
com colegas sem deficiências.
Para tanto, as escolas comuns precisam prever recursos e apoio para
atender às necessidades destes alunos.”
Nessa perspectiva, a Educação Inclusiva destaca a escola como lugar do exercício da cidadania e da garantia de direitos, na qual são respeitadas as características de cada estudante e oferecidas alternativas pedagógicas que atendam às essas características.
Uma segunda diretriz, baseada na missão da ECOS, refere-se à promoção e defesa dos direitos, em especial dos direitos sexuais e dos direitos reprodutivos, dos jovens. Isso significa que a sexualidade é abordada como um direito fundamental de todas/os adolescentes e jovens.
O Caderno foi concebido como um instrumento pedagógico para subsidiar educadores e educadoras oferecendo conteúdos teóricos (sexualidade, gênero, direitos sexuais, deficiência visual etc.) e sugestões de trabalho em grupo, numa perspectiva de inclusão, em particular das/dos adolescentes e jovens deficientes visuais. Utiliza argumentos fundamentados em marcos normativos e conceituais que orientam projetos e ações em direitos sexuais e direitos reprodutivos, em sexualidade e de promoção da saúde sexual e reprodutiva de adolescentes e jovens no Brasil e em outros países.
A informação e o questionamento das “verdades” estabelecidas, a troca de experiências, a reflexão crítica individual e coletiva sobre o cotidiano e sobre as relações humanas contribuem para o melhor entendimento dos vínculos afetivos e sexuais, para o maior conhecimento e respeito sobre si mesmo e sobre os outros, o que leva, por sua vez, a atitudes mais saudáveis e de fortalecimento da cidadania.
Estrutura do Caderno Sexualidade e Deficiência Visual: uma proposta de educação inclusiva
O Caderno focaliza as atividades com pessoas com deficiência visual, porém seu conteúdo e metodologia podem e devem ser trabalhados pela educadora e pelo educador com quaisquer jovens e adolescentes. A idéia é incluir em atividades de educação em sexualidade (rodas de conversas, oficinas) as pessoas com deficiência visual como sujeitos ativos em todas as questões que envolvam a juventude, inclusive, as relativas à sexualidade.
Está estruturado em três blocos. O primeiro deles – Começo de Conversa: perguntas e respostas sobre pessoa com deficiência visual - tem o propósito de familiarizar a/o leitora/or com algumas questões relativas à deficiência visual, numa linguagem simples e objetiva. No segundo bloco – O que é importante saber para uma educação inclusiva em sexualidade - são apresentados alguns conceitos fundamentais sobre adolescência e juventude, sexualidade, gênero, comunicação na prevenção e dicas para trabalhar com educação em sexualidade. O terceiro bloco – Como trabalhar a sexualidade de jovens e adolescentes com deficiência visual - traz sugestões de atividades elaboradas a partir de situações concretas vividas pelas/os adolescentes e jovens, com o objetivo de estimular a participação e autonomia dessas pessoas. O método proposto, de técnica de oficinas, é lúdico, favorecendo a participação, a interação coletiva, encorajando a solidariedade e o aprendizado das/os participantes uns com os outros. Estimula também a conversa e a escuta a partir da experiência vivida pelos e pelas adolescentes e jovens e ajuda a estabelecer vínculos com suas realidades. Várias atividades prevêem o uso do CD Namoro como recurso didático.
O Caderno contém ainda dois anexos, um deles com os marcos referenciais normativos e a educação inclusiva e outro sobre vulnerabilidade, doenças sexualmente transmissíveis e HIV-aids. São os textos de apoio à/ao educadora/or.
Testagem do Caderno Sexualidade e Deficiência Visual: uma proposta de educação inclusiva
O conteúdo do Caderno foi escrito por oito educadoras/educadores da ECOS e da Fundação Dorina Nowill para Cegos. Várias das atividades sugeridas estão baseadas em experiência das duas instituições no trabalho com jovens. Porém, a equipe avaliou que seria interessante, pelo pioneirismo da proposta, realizar um pré-teste de algumas destas atividades, sobretudo aquelas nas quais o CD Namoro era utilizado.
A Fundação Dorina Nowill fez contato com a Escola Estadual Caetano de Campos, uma escola pública de ensino fundamental e médio, que atua na perspectiva da inclusão, tendo entre seu corpo discente jovens com deficiência visual. Foram realizadas duas oficinas criadas para o caderno com as/os estudantes, do ensino médio, em sala de aula, com idades de 14 e 15 anos, baseadas nos episódios do CD Namoro.
Essa atividade ratificou o objetivo do projeto, que é oferecer condições para que as/os adolescentes falem das suas experiências, ansiedades e coloquem suas dúvidas e inquietações. E no caso, dos jovens com deficiência visual, que eles pudessem sentir-se participantes desta discussão.
Além desta testagem, enviamos a versão final do Caderno e do CD Namoro para um grupo de especialistas em educação, educação e deficiência, e comunicação para a mudança de comportamento, para emitirem um parecer crítico sobre esses materiais.
Cada parecerista recebeu por email um roteiro para efetuar a leitura seguida de análise do material. Com base em suas criticas e sugestões, a equipe realizou uma releitura do material e efetuou alguns ajustes finais. Trechos dos pareceristas foram inseridos na contracapa do Caderno e um dos pareceres foi adaptado como Prefácio.
Ao final dessa etapa o caderno foi impresso. Da tiragem impressa uma parte foi doada à Fundação Dorina Nowill a título de contra-partida pela participação no projeto, outra distribuída para instituições/pessoas que trabalham e/ou tem interesse pelo tema e o restante está disponibilizado para venda, que contribui para a sustentabilidade da ECOS.
BIBLIOGRAFIA
Gil, Marta (coord). Educação Inclusiva: o que o professor tem a ver com isso? São Paulo: Imprensa Oficial, 2005 |